Saí da sala de exibição com uma grande interrogação mental. Eu reconhecia grande qualidade no filme mas não sabia identificá-la. Há muito tempo eu não assistia uma fita, por mais hermética que fosse, sem desvendar a mensagem no roteiro contida.
Enigmático, áspero e rude. Sem um final feliz. Longe disso. A história, com cálculo requintado, cuidou em nos decepcionar nos desfechos de todos os personagens. E porque eu gostava daquilo. Eu me perguntava.
Sobretudo, incomodava, gostar de um personagem violento, mesmo que fosse escrupuloso. Nunca gostei de filmes inverossímeis e, conhecendo a obra dos irmãos Cohen, eu buscava a razão daquilo tudo porque eu sabia, havia.
E fiquei dias sem desvendar o enigma. Assisti a entrega do Oscar respeitando a quantidade e o peso dos prêmios sem aplaudir e temendo discordar. Excessão feita à magnífica atuação do Javier Baden (Mar adentro) eu não sabia ao certo porque "Onde os fracos não têm vez" (No Country for Old Men) (EUA): 2007 mereceria tamanha deferência.
Ontem à noite, contudo, pude ler a interpretação de desvelou os segredos da obra. No excelente artigo de Marcos Nobre, entitulado "Cara ou coroa no Oscar", publicado na Folha de São Paulo do mesmo dia e disponibilizado aos assinantes na Folha On-line, pelo UOL.
Pedindo licença ao autor, e à publicação, faço a total transcrição do texto neste blog por acreditar que algo valioso, como ele, e elucidativo como é, não pode ficar restrito. Fosse o conteúdo aberto eu faria, como via de regra faço, a indicação pelo link. Leiam se já tiverem assistido ao filme. Caso contrário, deixem para depois.
O GANHADOR do Oscar "Onde os Fracos não Têm Vez" começa com grandes planos que lembram os momentos heróicos dos faroestes. Mas as paisagens vão se tornando melancólicas como a voz do narrador, que diz que a única forma de avaliar a própria vida é se comparar com "os velhos". Justamente aqueles que segundo o título original ("No Country for Old Men") não têm mais lugar. Como os "velhos", também o narrador desaparece sem maiores explicações. Se não há mais um passado com que se comparar, não há também como adotar a máscara do narrador. Não é mais possível contar uma história até o fim. O filme toma todos os grandes temas e gêneros do cinema sem levar nenhum deles até o fim. O caçador que passa a ser caçado, o faroeste, o filme de ação, o pastelão, o suspense, a violência gratuita, o road movie, cada um parece se configurar e desaparece em seguida. É possível descobrir quando se passa a ação porque o matador decide jogar a vida de um dono de posto de gasolina em um cara ou coroa. Ele diz que a moeda de 1958 está circulando há 22 anos. Uma das chaves do filme é essa: o apagão político em que nos encontramos começou lá no mundo xiita do governo Reagan. Mas só mostrou por inteiro a sua face agora. E o matador é o seu emblema. O filme é muito bem-sucedido em desmontar o grande motor ideológico do capitalismo dos EUA, o acaso. A única esperança de se dar bem na vida é um lance de sorte, é agarrar-se a uma oportunidade. Por isso é também um país obcecado por conspirações: elas são a contrapartida lógica da crença no domínio universal do acaso. Daí o sucesso de um Michael Moore. "Onde os Fracos não Têm Vez" desmonta essa alternativa entre o sem sentido completo do acaso e a explicação completa da conspiração. O matador se apresenta como agente da morte, como agente do acaso. Mas ele mesmo, na sua conduta, segue princípios rígidos e inflexíveis. Nesse momento surge uma tênue esperança. Paradoxalmente, a maior fraqueza do filme também. Voltando do funeral de seu marido e de sua mãe, a mulher encontra o assassino em sua casa. Uma vez mais ele propõe um cara ou coroa. Ela se recusa a jogar. Diz que não é o acaso quem decide. É ele. Ou seja, há uma pessoa de carne e osso tomando decisões. As decisões poderiam ser outras. Mas aí é que está o segredo: não é de fato uma pessoa, um indivíduo que está tomando decisões. Também o matador segue um mecanismo que ele não compreende. Ele apenas executa, nos dois sentidos da expressão. Talvez essa tênue esperança possa explicar por que um filme tão bom ganhou o Oscar.
MARCOS NOBRE escreve às terças-feiras na coluna Opinião, da Folha de São Paulo.
Impossível não refletir muito acerca dos meus 18 anos de paternidade. Ter uma mulher como filha é experiência única e que desejo a todos os amigos homens.
Que ter um filho homem é sensacional, isso todo homem já sabe antecipadamente. É a oportunidade de amar verdadeiramente outro homem sem que a sexualidade esteja em jogo. É a oportunidade de se ver no novo, numa releitura genética, tendo metade dos seus cromossomos e da sua cultura combinados a outros tantos 50% da companheira escolhida e quase sempre amada. É a chance de ter um amigo verdadeiro que se pode, e deve, abraçar e encher de beijos. De trocar chutes e socos e, terminada a "briga", descançar abraçado. É a pessoa certa para falar das mulheres e das aventuras vividas.
O que poucos homens sabem é que ter uma filha é a única oportunidade que se tem de amar uma mulher desinteressada, interminável e incondicionalmente! É a chance de ver a beleza feminina - física, emocional, intelectual, sentimental e cultural - se desenvolver e se estabelecer sem que se queira outra coisa senão ver essa beleza acontecer em toda a sua plenitude e resultando em felicidade. É a única forma de ser 50% mulher mantendo-se 100% homem. De ver seus cromossomos se recombinarem em formas ética e estéticamente novas e, feminina, ganharem charme, beleza, astúcia, sensibilidade e inteligência diversas.
Tenho o privilégio de ter um casal como filhos. Maior ainda a felicidade de ser perdidamente apaixonado por eles. E, assim, cada vez mais entendo as mulheres e conheço mais os homens. Vivo um e outro diariamente, sofro nos dois gêneros, participo duplamente das conquistas e fracassos, e sou feliz no masculino e no feminino. Além disso tudo, conheço-me mais nas duas dimensões.