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Blog do Wilson - CulturaWeb
fevereiro de 2008
Ninguém esquecerá Anton W. Chigurh
quarta-feira, fevereiro 27 2008 - 09:46

Saí da sala de exibição com uma grande interrogação mental. Eu reconhecia grande qualidade no filme mas não sabia identificá-la. Há muito tempo eu não assistia uma fita, por mais hermética que fosse, sem desvendar a mensagem no roteiro contida.

Enigmático, áspero e rude. Sem um final feliz. Longe disso. A história, com cálculo requintado, cuidou em nos decepcionar nos desfechos de todos os personagens. E porque eu gostava daquilo. Eu me perguntava.

Sobretudo, incomodava, gostar de um personagem violento, mesmo que fosse escrupuloso. Nunca gostei de filmes inverossímeis e, conhecendo a obra dos irmãos Cohen, eu buscava a razão daquilo tudo porque eu sabia, havia.

E fiquei dias sem desvendar o enigma. Assisti a entrega do Oscar respeitando a quantidade e o peso dos prêmios sem aplaudir e temendo discordar. Excessão feita à magnífica atuação do Javier Baden (Mar adentro) eu não sabia ao certo porque "Onde os fracos não têm vez" (No Country for Old Men) (EUA): 2007  mereceria tamanha deferência.

Ontem à noite, contudo, pude ler a interpretação de desvelou os segredos da obra. No excelente artigo de Marcos Nobre, entitulado "Cara ou coroa no Oscar", publicado na Folha de São Paulo do mesmo dia e disponibilizado aos assinantes na Folha On-line, pelo UOL.

Pedindo licença ao autor, e à publicação, faço a total transcrição do texto neste blog por acreditar que algo valioso, como ele, e elucidativo como é, não pode ficar restrito. Fosse o conteúdo aberto eu faria, como via de regra faço, a indicação pelo link. Leiam se já tiverem assistido ao filme. Caso contrário, deixem para depois. 

O GANHADOR do Oscar "Onde os Fracos não Têm Vez" começa com grandes planos que lembram os momentos heróicos dos faroestes. Mas as paisagens vão se tornando melancólicas como a voz do narrador, que diz que a única forma de avaliar a própria vida é se comparar com "os velhos". Justamente aqueles que segundo o título original ("No Country for Old Men") não têm mais lugar.
Como os "velhos", também o narrador desaparece sem maiores explicações. Se não há mais um passado com que se comparar, não há também como adotar a máscara do narrador. Não é mais possível contar uma história até o fim.
O filme toma todos os grandes temas e gêneros do cinema sem levar nenhum deles até o fim. O caçador que passa a ser caçado, o faroeste, o filme de ação, o pastelão, o suspense, a violência gratuita, o road movie, cada um parece se configurar e desaparece em seguida.
É possível descobrir quando se passa a ação porque o matador decide jogar a vida de um dono de posto de gasolina em um cara ou coroa. Ele diz que a moeda de 1958 está circulando há 22 anos. Uma das chaves do filme é essa: o apagão político em que nos encontramos começou lá no mundo xiita do governo Reagan. Mas só mostrou por inteiro a sua face agora. E o matador é o seu emblema.
O filme é muito bem-sucedido em desmontar o grande motor ideológico do capitalismo dos EUA, o acaso. A única esperança de se dar bem na vida é um lance de sorte, é agarrar-se a uma oportunidade. Por isso é também um país obcecado por conspirações: elas são a contrapartida lógica da crença no domínio universal do acaso. Daí o sucesso de um Michael Moore.
"Onde os Fracos não Têm Vez" desmonta essa alternativa entre o sem sentido completo do acaso e a explicação completa da conspiração. O matador se apresenta como agente da morte, como agente do acaso. Mas ele mesmo, na sua conduta, segue princípios rígidos e inflexíveis.
Nesse momento surge uma tênue esperança. Paradoxalmente, a maior fraqueza do filme também. Voltando do funeral de seu marido e de sua mãe, a mulher encontra o assassino em sua casa. Uma vez mais ele propõe um cara ou coroa.
Ela se recusa a jogar. Diz que não é o acaso quem decide. É ele. Ou seja, há uma pessoa de carne e osso tomando decisões. As decisões poderiam ser outras.
Mas aí é que está o segredo: não é de fato uma pessoa, um indivíduo que está tomando decisões. Também o matador segue um mecanismo que ele não compreende. Ele apenas executa, nos dois sentidos da expressão.
Talvez essa tênue esperança possa explicar por que um filme tão bom ganhou o Oscar.

MARCOS NOBRE escreve às terças-feiras na coluna Opinião, da Folha de São Paulo.

Senhores do crime
domingo, fevereiro 24 2008 - 09:42
Fomos ontem assistir ao "Senhores do Crime" (Eastern Promises) EUA / Canadá / Inglaterra): 2007 esperando um filme de ação e violência. O meu objetivo maior era ver a atuação de Viggo Mortensen (Senhor dos Anéis) que foi indicada ao Oscar 2008 para Melhor Ator. Foi uma grata surpresa. O filme tem qualidade como drama.
David Cronember, renomado diretor de filmes de ficcção e suspense, parece haver tomado um outro caminho, agora o do verossímel. O filme retrata o cotidiano dos imigrantes russos numa Londres que tenta os ocidentalizar. Mostra a resistência cultural que as famílias dispensam, principalmente, no caso, através da culinária, dos valores e dos costumes. A reconstituição visual assegura o bizantismo nos móveis, nas obras de arte, nas tatuagens e a "dureza" de espírito de imigrantes que, fugindo do regime, praticam o contrabando, a prostituição e as relações de obediência mafiosa da organização Vory V Zakone.

Ficha técnica
JUNO conquista as platéias jovens brasileiras
domingo, fevereiro 24 2008 - 09:06
Ontem, fui ao cinema, no maior conjunto de salas de Brasília e, por mais que eu houvesse previsto semanas atrás, e registrado neste blog, fiquei impressionado com a fila formada para assistir ao filme "Juno". Mais do que me espantar o tamanho da fila formada foi ver que ela era praticamente formada por jovens.
Isso corrobora a teoria de que o tema é de muito interesse para os adolescentes e que os adultos pouco se interessam pelo universo mental da sua juventude. Isso é um erro que, espero, será corrigido pela repercussão que o filme ganhará ainda mais.
Assistam, a trilha sonorá já vale apenas. Trilha essa aliás que, soube, está liderando a venda de CDs.
Acabei  de ver o jovem diretor do filme, Jaison Reitman, falar no canal TNT, sobre o filme. Ele disse, dentre tantas coisas, que Ellen Page o impressionou como nenhuma outra atriz já havia feito, dada sua inteligência, cultura e energia. Ele disse que a atriz é ainda maior que a personagem.
Reitman disse ainda, definindo o seu filme, que é uma obra que trata sobre a história de jovens que têm que amadurecer rápido demais e de adultos que se recusam a fazê-lo.
Em algumas horas sairão os premiados. É uma pena que não interesse a poucos que seja vencedora uma obra independente, de baixo custo e escrito por uma ex-stripper. Mesmo que a obra seja genial.
E a minha menina se tornou mulher...
domingo, fevereiro 24 2008 - 08:51
E a minha menina se tornou mulher...
domingo, fevereiro 17 2008 - 11:14

Impossível não refletir muito acerca dos meus 18 anos de paternidade. Ter uma mulher como filha é experiência única e que desejo a todos os amigos homens.

Que ter um filho homem é sensacional, isso todo homem já sabe antecipadamente. É a oportunidade de amar verdadeiramente outro homem sem que a sexualidade esteja em jogo. É a oportunidade de se ver no novo, numa releitura genética, tendo metade dos seus cromossomos e da sua cultura combinados a outros tantos 50% da companheira escolhida e quase sempre amada. É a chance de ter um amigo verdadeiro que se pode, e deve, abraçar e encher de beijos. De trocar chutes e socos e, terminada a "briga", descançar abraçado. É a pessoa certa para falar das mulheres e das aventuras vividas.

O que poucos homens sabem é que ter uma filha é a única oportunidade que se tem de amar uma mulher desinteressada, interminável e incondicionalmente! É a chance de ver a beleza feminina - física, emocional, intelectual, sentimental e cultural - se desenvolver e se estabelecer sem que se queira outra coisa senão ver essa beleza acontecer em toda a sua plenitude e resultando em felicidade. É a única forma de ser 50% mulher mantendo-se 100% homem. De ver seus cromossomos se recombinarem em formas ética e estéticamente novas e, feminina, ganharem charme, beleza, astúcia, sensibilidade e inteligência diversas.

Tenho o privilégio de ter um casal como filhos. Maior ainda a felicidade de ser perdidamente apaixonado por eles. E, assim, cada vez mais entendo as mulheres e conheço mais os homens. Vivo um e outro diariamente, sofro nos dois gêneros, participo duplamente das conquistas e fracassos, e sou feliz no masculino e no feminino. Além disso tudo, conheço-me mais nas duas dimensões.

JUNO
domingo, fevereiro 24 2008 - 08:50
JUNO, uma fábula sobre a gravidez precoce e as relações de família
sábado, janeiro 26 2008 - 10:09
Assisti a pré-estréia de Juno ( EUA, 2007 ). O filme, que irá para as salas no próximo dia 1º de fevereiro, trará para o Brasil os debates que provocou nos EUA. A primeira polêmica será o julgamento do filme. Odiado por muitos e já aclamado por tantos outros ( sobretudo , jovens e adolescentes ). A segunda discussão é o quanto de realidade pode conter a história. Lucas Mendes, em preconceituoso e mal-escrito artigo para "O Globo", por exemplo, disse "tive três filhos adolescentes e nunca vi jovem conversar como nos diálogos de Juno". Eu tenho dois adolescentes e vejo a minha filha ter diálogos como os dela.
É preciso que o filme seja visto como uma fábula. Sobre a gravidez precoce e sobre as relações de família na sociedade pós-industrial. Isso pode ser percebido no tratamento gráfico dado à introdução do filme e nas referências mitólogicas feitas. O reconhecimento dos jovens decorre justamente da idealização da história. Eles se vêm na personagem que busca a estabilidade familiar, o amor correspondido, as relações duradouras, o apoio incondicional dos pais e a independência necessária para viver as aventuras de aprendizadem.
Fui à sessão curioso para saber dos motivos que levaram o filme a receber tão pesadas indicações ao Oscar 2008 - "Melhor Filme", "Melhor Diretor", "Melhor Atriz" e "Melhor Roteiro Original".  Apesar de achar que as chances de premiação só repousam no "Melhor Roteiro Original" já me posto junto ao grupo que aclama a obra.
Aqueles que se opõe à qualidade da produção o fazem por discordar da forma como a personagem Juno se comporta diante da sua gravidez inesperada ( aos 16 anos ) e muito mais, das decisões que toma em relação ao fato. O filme já cumpriu com o papel de levar o tema para as ruas.
Juno, na mitologia grega, esposa de Zeus, era a protetora  do casamento, do parto e, sobretudo, da mulher em todas as suas fases. Pensem nisso ao julgar a mensagem do filme antes do veredicto.
Os recursos gráficos são inovadores e cativantes. Lançarão o estilo no cinema e nos clipes musicais. A trilha sonora de Belle & Sebastian é apropriada e cativante. O grande mérito, contudo, de roteiro e direção, foi criar, partindo do talento de Ellen Page ( Menina Má.com, 2005 e X-Men: O confronto Final,2006 ) uma personagem com um carisma como a muito não se via. Eis o ponto alto numa época de pasteurização de imagens e de replicações de modelos.
Juno Mc Guff é ímpar. De um bom-humor férreo e de inteligência notável, menina nas atitudes e mulher nas decisões, tem aparência sensível e personalidade forte. Aberta às opiniões alheias mantém-se firme nas convicções e nas relações. Alegre, amiga e independente é consciente da sua fase de adolescência mas é capaz de visualizar claramente os seus papéis e responsabilidades presentes e futuros. Encantadora.
Vi nela uma síntese de muitas amigas que passaram pela minha vida no ensino fundamental, médio e faculdade. Vi o carisma que reside na rebeldia e na oposição aos valores vigentes.
Prevejo que a personagem será arquetipal para muitas jovens e modelar para muitos rapazes. Vejo com mais certeza que, com Ellen Page - apesar da infelicidade de concorrer com Marion Cotillard, Julie Christie e Cate Blanchett - nasce uma nova estrela para Hollywood.

Ficha técnica
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