Minhas preferências têm recaído pelos filmes da nova geração de cineastas franceses e italianos, que dão um olhar realista para a vida e valorizam as belezas ética e estética do cotidiano das pessoas. Sem amargor demais, sem alegria permanente, sem valorizar neuroses. A vida como ela realmente nos parece. Esse cinema faz com que nos vejamos e vejamos as pessoas próximas a nós, nas telas, da mesma forma que torna os atores pessoas possíveis na nossa realidade.
Além disso, os elementos do cotidiano ganharam lugar de destaque. A arquitetura, a decoração das casas e dos comércios, os ingredientes da culinária, livros, roupas e acessórios, recebem a importância que Alfonso Arau e Almodóvar lhes conferiram. Atores e atrizes são mostrados com maquiagem mínima e suas belezas e feições são retratadas mostrando que rugas, pintas e marcas de expressão lhes são tão verdadeiras quanto, também, belas e reais.
E assim é com Baby Love, cujo título brasileiro, como sempre acontece, não faz jus ao enredo do filme. O título original "Comme les Autres" (França/2008) é totalmente apropriado. O estreante diretor Vincent Garenq (anotem, promete) retrata a odisséia de um médico gay, que maduro, decide constituir família e adotar uma criança. Além de mostrar toda a dificuldade de tal iniciativa dentro de uma conservadora legislação francesa (que não permite o casamento e a adoção de filhos, por homossexuais) retrata toda a espécie de preconceito que o personagem enfrenta. Preconceitos do Estado, da família, dos amigos e, interessante, até mesmo os preconceitos do próprio parceiro e de outros homossexuais.
Com grandes interpretações dos quatro atores centrais. Lambert Wilson (Manu) e Pascal Elbé (Philippe) são extremamente convincentes nos papéis de gays, sem exageros, e com as dificuldades imagináveis de incorporar uma identidade de gênero que não lhes é real. A nova é jovem atriz espanhola Pilar López de Ayala (Fina) encanta com sua doçura e realismo e, Anne Brochet (Cathy) protagoniza uma das cenas mais surpreendentes do filme quando faz um desabafo surpreendente e autêntico.
O maior valor do filme é o de mostrar - para preconceituosos ou não – que, nos sentimentos mais humanos, nas necessidades naturais e existenciais, somos todos, não importa o gênero, iguais. E é isso que o personagem gay Manu e a garota hétero Fina fazem. Mostram que os mesmos anseios, desejos, medos e vulnerabilidades, são comuns aos diferentes genêros e que as incompatibilidades decorrem não das identidades mas das diferentes orientações sexuais.
Saí da sala de exibição com uma grande interrogação mental. Eu reconhecia grande qualidade no filme mas não sabia identificá-la. Há muito tempo eu não assistia uma fita, por mais hermética que fosse, sem desvendar a mensagem no roteiro contida.
Enigmático, áspero e rude. Sem um final feliz. Longe disso. A história, com cálculo requintado, cuidou em nos decepcionar nos desfechos de todos os personagens. E porque eu gostava daquilo. Eu me perguntava.
Sobretudo, incomodava, gostar de um personagem violento, mesmo que fosse escrupuloso. Nunca gostei de filmes inverossímeis e, conhecendo a obra dos irmãos Cohen, eu buscava a razão daquilo tudo porque eu sabia, havia.
E fiquei dias sem desvendar o enigma. Assisti a entrega do Oscar respeitando a quantidade e o peso dos prêmios sem aplaudir e temendo discordar. Excessão feita à magnífica atuação do Javier Baden (Mar adentro) eu não sabia ao certo porque "Onde os fracos não têm vez" (No Country for Old Men) (EUA): 2007 mereceria tamanha deferência.
Ontem à noite, contudo, pude ler a interpretação de desvelou os segredos da obra. No excelente artigo de Marcos Nobre, entitulado "Cara ou coroa no Oscar", publicado na Folha de São Paulo do mesmo dia e disponibilizado aos assinantes na Folha On-line, pelo UOL.
Pedindo licença ao autor, e à publicação, faço a total transcrição do texto neste blog por acreditar que algo valioso, como ele, e elucidativo como é, não pode ficar restrito. Fosse o conteúdo aberto eu faria, como via de regra faço, a indicação pelo link. Leiam se já tiverem assistido ao filme. Caso contrário, deixem para depois.
O GANHADOR do Oscar "Onde os Fracos não Têm Vez" começa com grandes planos que lembram os momentos heróicos dos faroestes. Mas as paisagens vão se tornando melancólicas como a voz do narrador, que diz que a única forma de avaliar a própria vida é se comparar com "os velhos". Justamente aqueles que segundo o título original ("No Country for Old Men") não têm mais lugar. Como os "velhos", também o narrador desaparece sem maiores explicações. Se não há mais um passado com que se comparar, não há também como adotar a máscara do narrador. Não é mais possível contar uma história até o fim. O filme toma todos os grandes temas e gêneros do cinema sem levar nenhum deles até o fim. O caçador que passa a ser caçado, o faroeste, o filme de ação, o pastelão, o suspense, a violência gratuita, o road movie, cada um parece se configurar e desaparece em seguida. É possível descobrir quando se passa a ação porque o matador decide jogar a vida de um dono de posto de gasolina em um cara ou coroa. Ele diz que a moeda de 1958 está circulando há 22 anos. Uma das chaves do filme é essa: o apagão político em que nos encontramos começou lá no mundo xiita do governo Reagan. Mas só mostrou por inteiro a sua face agora. E o matador é o seu emblema. O filme é muito bem-sucedido em desmontar o grande motor ideológico do capitalismo dos EUA, o acaso. A única esperança de se dar bem na vida é um lance de sorte, é agarrar-se a uma oportunidade. Por isso é também um país obcecado por conspirações: elas são a contrapartida lógica da crença no domínio universal do acaso. Daí o sucesso de um Michael Moore. "Onde os Fracos não Têm Vez" desmonta essa alternativa entre o sem sentido completo do acaso e a explicação completa da conspiração. O matador se apresenta como agente da morte, como agente do acaso. Mas ele mesmo, na sua conduta, segue princípios rígidos e inflexíveis. Nesse momento surge uma tênue esperança. Paradoxalmente, a maior fraqueza do filme também. Voltando do funeral de seu marido e de sua mãe, a mulher encontra o assassino em sua casa. Uma vez mais ele propõe um cara ou coroa. Ela se recusa a jogar. Diz que não é o acaso quem decide. É ele. Ou seja, há uma pessoa de carne e osso tomando decisões. As decisões poderiam ser outras. Mas aí é que está o segredo: não é de fato uma pessoa, um indivíduo que está tomando decisões. Também o matador segue um mecanismo que ele não compreende. Ele apenas executa, nos dois sentidos da expressão. Talvez essa tênue esperança possa explicar por que um filme tão bom ganhou o Oscar.
MARCOS NOBRE escreve às terças-feiras na coluna Opinião, da Folha de São Paulo.